14 Dias - uma vida com enxaquecas

Charlie tem 42 anos e vive em Baltimore, Estados Unidos. É casado, tem dois filhos e trabalha seis vezes por semana. Frequenta o AA e encontra os amigos sempre que possível. Ele teria uma vida normal não fossem suas crises de enxaqueca. Elas se agravaram, nas últimas duas semanas, prejudicando seu desempenho no trabalho, seu relacionamento com a família e sua vida social.

14 days - a life with migraines

 

Charlie não é uma pessoa real, mas um personagem do jogo 14 days - a life with migraines (14 dias - uma vida com enxaqueca). Criado pela empresa Make Big Things com financiamento coletivo, o jogo permite que pessoas comuns entendam como é a vida de alguém que sofre de enxaquecas.

Enxaquecas: gravemente subestimadas

Crises de enxaqueca afetam mais pessoas do que se imagina. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 25% da população adulta no mundo sofre dessa condição debilitante. Estamos falando de crises que podem ocorrer mais de uma vez num período de 15 dias, e que têm grandes impactos para os indivíduos e a sociedade. Pessoas que sofrem de enxaquecas têm mais chances de desenvolver ansiedade e depressão. Isso não é surpreendente, considerando que suas crises prejudicam seus relacionamentos e, em situações extremas, as forçam a abandonar os estudos e carreiras. Apesar de seus efeitos debilitantes, crises de enxaqueca não são vistas como uma doença grave, por acontecerem por episódios, não serem contagiosas e não levarem a óbito. Sua gravidade é minimizada ou ignorada por familiares ou pessoas próximas.

Conectando pessoas com doenças crônicas

Como a maioria das pessoas que não enfrenta dores de cabeça recorrentes, eu poderia ter continuado a ignorar a existência dessa condição e seus efeitos devastadores. Mas, há 6 anos, criei o Amizade Positiva, uma rede social para pessoas que vivem com doenças crônicas. Embora tenha sido criada para as pessoas encontrarem outras que possuíssem condições similares às suas, através do Amizade Positiva, muitas usuários se juntaram à rede sem possuírem nenhuma doença crônica, mas desejando entender mais sobre as condições de alguém próximo passando por alguma dificuldade.

Um jogo para entender a dor crônica

Quando, em uma conferência, fui presenteado com o 14 days, percebi o potencial que esse jogo teria para ajudar a familiares e amigos de pessoas com crises de enxaqueca a entenderem um pouco mais sobre como é conviver com esse problema. Como 14 days é um jogo para duas pessoas, convidei uma amiga para viver, por cerca de 40 minutos, na pele de uma pessoa com enxaquecas. O jogo em si é relativamente simples:

Como o jogo funciona

14 days - a life with migraines

Cada jogador escolhe uma ficha com informaçòes básicas dos personagens. Eles precisam dedicar três tarefas por dia focadas em áreas diferentes de suas vidas (amor, trabalho, cuidados pessoais, amigos, tarefas domésticas e hobbies). O que define se um dia será produtivo (ou seja, se o personagem terá ou não uma crise de enxaqueca) é o número dos dados. 1 a 3 significa que será um dia normal; 4 , que uma tarefa não será cumprida; 5, que duas tarefas não serão cumpridas e 6, que o personagem terá uma crise forte de enxaqueca e não conseguirá realizar nenhuma tarefa.

Além disso, é necessário construir uma narrativa para cada personagem. Nesse exercício de storytelling, somos auxiliados por informações básicas sobre nossos personagens. A partir delas, somos estimulados a entender e traduzir o que cada um sente e como lida com o problema de viver com essa doença crônica. Entender o que cada um sente, suas frustrações, como suas crises prejudicam sua vida pessoal, seus relacionamentos e seu trabalho. Na pele de Charlie, comecei a entender que ele possui seus sentimentos, família, emprego, amigos, assim como todos nós. E precisa encontrar meios de seguir em frente mantendo sua via em movimento, apesar de sua condição.

Minha amiga e eu jogando 14 days - a life with migraines

Construindo empatia

Dados e estatísticas, muitas vezes, não são suficientes para se entender a perda que uma doença crônica pode trazer para o dia-a-dia de quem a tem. Daí a importância de exercícios que possibilitem compreender melhor como é estar na pele dessas pessoas. No final do jogo, somos instruídos a refletir sobre o que nossos personagens viveram e o que aprendemos. Encontramos muito de nós mesmos nos personagens que construímos. O jogo utiliza a criação de histórias para trazer um sentimento básico à tona: a empatia. E se tivermos maior capacidade de entender as dificuldades de viver com uma doença crônica tão pouco compreendida, talvez seja possível discutir  abertamente sobre ela, permitindo  às pessoas conversar mais sobre suas condições, buscar apoios, tratamentos mais eficazes e, perceber, por fim, que não estão sozinhas.

Leia o texto em inglês aqui.